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Operação Rafale

  • José Augusto Zague
  • 20 de nov. de 2015
  • 3 min de leitura

O avanço do grupo Estado Islâmico (EI) na conquista de porções do território do Iraque e da Síria e a intervenção de potências militares como Rússia, Estados Unidos e França no conflito, são o pano de fundo para os atentados terroristas perpetrados pelo EI que vitimou dezenas de civis em Paris no último dia 13 de novembro.


A posição cautelosa assumida pela França durante a desastrosa intervenção dos Estados Unidos no Iraque, após os atentados de 11 de Setembro, deu lugar em anos recentes, a uma postura intervencionista do país no Oriente Médio. A ampliação da projeção francesa sobre o Oriente Médio, parece não atender apenas a critérios da geopolítica ou a objetivos de caráter “humanitário”, mas se apresenta vinculada ao objetivo estratégico de possibilitar ao país ampliar a venda de armamentos para aquela região.


Durante o governo do presidente Charles de Gaulle, que governou a França entre as décadas de 1950 e 1960, o país desenvolveu um modelo de autonomia estratégica em defesa, priorizando a estruturação da produção nacional de armamentos. A política do presidente De Gaulle buscou autonomia em relação aos Estados Unidos na produção e emprego de armamentos e consolidou a Base Industrial de Defesa do país em setores estratégicos, como a construção aeronáutica.


No contexto atual da OTAN, a França - ao contrário de Alemanha, Espanha, Itália e Reino Unido que cooperam entre si na produção de aeronaves de combate - produz o seu próprio vetor de defesa aérea: o caça multifunção Rafale. Enquanto o consócio dos mencionados países europeus produz o caça multifunção Eurofighter Typhoon, e conseguem diminuir os custos de desenvolvimento e produção com aproveitamento de ganhos de escala, a opção pela autonomia do Rafale, torna a aeronave francesa mais cara do que seus concorrentes diretos.


O alto custo do Rafale se tornou um problema para o seu fabricante, a Dassault Aviation, e para o governo francês que financiou o projeto na década de 1980. Abrir mercados para a aeronave passou a ser prioridade do governo francês, notadamente durante os anos 2000. Além das investidas da diplomacia comercial francesa, que tentou a venda da aeronave para diversos países do mundo, inclusive o Brasil, conta ainda para a comercialização de uma aeronave de combate o histórico de ações e horas voadas em combate.


Nas recentes intervenções francesas em territórios do Iraque e da Síria para atacar o EI, o Rafale foi utilizado como principal vetor do país nas incursões aéreas. Em recente entrevista, o cientista político francês Bertrand Badie, mencionou que o intervencionismo francês é resultado do afastamento do modelo “gaullista” que vigorou até o governo Chirac, que no Conselho de Segurança da ONU votou contra a ação militar estadunidense no Iraque após o 11 de Setembro.


A explicação para o que Badie chama de neoconservadorismo intervencionista dos governos Sarkozy e Hollande para a África e Oriente Médio, pode não estar na imposição da força como demonstração de ruptura com o modelo gaullista ou afirmação da França como potência no mundo Pós Guerra-Fria, mas como parte de uma ação para dinamizar as vendas da indústria de defesa francesa, sobretudo a do Rafale também porque por anos foi considerado um fracasso comercial.


Nas incursões da Armée de l´Air sobre os territórios do Iraque e da Siria iniciadas em 2014, o Rafale ocupou posição de destaque nos ataques sobre posições do EI nos dois países. Mais do que “salvar” os países do Oriente Médio do avanço do EI, o conflito serviu para um novo road show do Rafale, com o objetivo de demonstrar a precisão e qualidade do equipamento, apesar do seu alto custo: US$ 250 milhões a unidade.


Não tardou e o emprego do Rafale no conflito apresentou os primeiros resultados. Em fevereiro de 2015 a França anunciou a venda de 24 unidades da aeronave de combate no valor estimado em US$ 6 bilhões para o Egito. Em maio de 2015 o governo francês anunciou a venda de outras 24 unidades da aeronave para o Catar pelo mesmo valor.


Em busca de um conflito capaz de oferecer oportunidades de negócios para a indústria de defesa francesa, o país acabou importando a guerra para dentro de casa, com o previsível aumento de vítimas civis.


José Augusto Zague é doutorando em Relações Internacionais no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP) e pesquisador do GEDES.

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