top of page

A Rússia e o 13 de novembro

  • Bruna Bosi Moreira
  • 19 de nov. de 2015
  • 3 min de leitura

Os atentados à Paris despertaram o interesse internacional pela compreensão de uma complexa rede de variáveis e de atores envolvidos na crise que culminou com os atos de terrorismo vividos na última sexta-feira. Parte dessa intrincada dinâmica é a Rússia, que desde 30 de setembro deste ano vem bombardeando o território sírio. Nesse contexto, compreender as motivações geopolíticas do Kremlin é central para que se elucide o papel que o país vem exercendo no quadro de crise que se pintou com cores mais fortes na semana passada em Paris.


Desde 2000, quando Vladmir Putin assume o poder, a Rússia vem se fortalecendo internamente, o que lhe permite recuperar aos poucos seu poder relativo no sistema internacional, perdido bruscamente com o desmantelamento da União Soviética na década precedente. Nos últimos anos, essa preocupação em recobrar seu status de player global tem se intensificado e a anexação da Criméia em março de 2014 é episódio ilustrativo da estratégia moscovita, da qual a atuação na Síria é parte constituinte. Não obstante, neste último caso, há um elemento inovador: a Rússia está atuando fora de seu entorno estratégico, conhecido como Exterior Próximo, o qual engloba a zona de interesses vitais do país e é composto basicamente pelos países da Ásia central e parte do leste europeu que outrora conformaram a URSS.


Nesse contexto, o movimento extra-regional a que assistimos hoje é indicativo das pretensões russas e de sua Weltanschauung. A base naval de Tartus é a única no Mediterrâneo e estratégica por lhe permitir atuar além do Mar Negro, avançando, portanto, os limites de seu Exterior Próximo, em uma clara demonstração de poder. Evidentemente, o maior protagonismo russo tem colocado Washington em alerta, especialmente quando a divergência de interesses entre os dois países é profunda e engessa o processo de resolução de tensões como a da Síria, que até agora foi ilustrativa dessa polarização.


Para os EUA, a saída da crise síria passa pela derrubada de Bashar al-Assad e, para os russos, pela sua manutenção, ao menos por hora. Esse tem sido um ponto tão basilar da concepção das duas potências que impossibilitou a coordenação formal entre elas. O motivo é que, enquanto Assad é aliado de Moscou, os grupos de oposição não-Estado Islâmico estão sendo apoiados (inclusive com treinamento de recursos humanos e fornecimento de armamentos) pelos EUA e seus aliados. Isso explica a centralidade da permanência ou não do regime de Assad na visão de Moscou e Washington. Afinal, a opção por uma dessas duas saídas aliaria a futura Síria de um lado ou de outro, no contexto dessa oposição internacional russo-americana que tem se acirrado desde o início da crise ucraniana.


Mas não há bons e maus nessa história, e sim responsabilidades que devem ser assumidas. Enquanto os EUA são acusados de ter permitido que o EI crescesse e fizesse o “trabalho sujo” de lutar contra Assad, a Rússia é recriminada por atingir alvos de oposição ao regime que não são EI e, portanto, fortalecer Assad, dando-lhe uma sobrevida. Os atentados à Paris forçam as partes a se coordenarem. Não há mais tempo para divergências e a conversa tête-à-tête entre Obama e Putin no encontro do G20 é ilustrativa dessa mudança estratégica, que deve finalmente focar no combate ao EI.


Assim, o 13 de novembro pode servir como um elo entre as duas concepções estratégicas e em certa medida soar como uma vitória de Putin – que vinha insistindo em coordenar esforços com a aliança liderada por Washington – ao forçar os EUA a aceitarem a participação da Rússia, ainda que este país se oponha ao ponto central defendido pelos norte-americanos na Síria.


Bruna Bosi Moreira é mestranda em Relações Internacionais no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP) e pesquisadora do GEDES.


Texto originalmente publicado no Portal da Universidade - UNESP, em 19 de novembro de 2015.

Posts recentes

Ver tudo
ERIS No. 2 - Novembro / 2015

Artigos: O que mudou depois de 20 anos do assassinato de Rabin? Karina Stange Calandrin Parlamento armado. José Augusto Zague Os...

 
 
 
Em caso de terrorismo... gatos!

Desde os atentados terroristas de 13 de novembro, em Paris, a Bélgica tem enfrentado uma elevação no nível de alerta em suas cidades. Em...

 
 
 
Destaques
Recentes
Arquivo
Busca por Tags
 

Eris - Defesa e Segurança Internacional

© 2015 por GEDES. 

  • Facebook Clean
  • Twitter Clean
  • Google+ Clean
bottom of page